Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Sem tempo nem lugar que me levem a altos voos, continuo a mesma pessoa.

Vejo filmes mas não faço criticas cinematográficas em blogs, leio livros e não critico o seu conteúdo.

Vou a um ou outro espectáculo e não me interessa se o dó ou ou ré não pertenciam ali.
Gosto, ou não gosto.

É tudo.

Que me interessa se o actor X trazia um Rolex no tempo do Constantino?

Isto para dizer que ao reabrir temporariamente este blog, não sou essencialmente diferente.
Talvez nuns pormenores o seja.

Talvez mais distante do que era. Talvez menos intimista. Será melhor ou pior?

Como em tudo, há quem goste, e há quem não goste. Dantes, gostava que gostassem.

Lia os comentários com gosto. Não gostava de alguns, é verdade, mas nunca hostilizei ninguém.
Vou escrever o que me der na gana, excepto poemas de amor. Daqueles tais. Outros, talvez. Se me der na gana.

Estou farta deles, são mato por aí.

Politica, nem pensar. Não acredito neles. Só se vier um ET que ensine a esta gente como gerir um país.

Por isso, não terei um blog decente. Antes pelo contrário.Talvez seja alegremente indecente.
Depende da opinião de cada um.

Hasta.

Domingo, Julho 26, 2009

Eu amo a Câmara Municipal de Lisboa

Algo me aconteceu que me faz pensar no fundamentalismo. Oremos.

Não me refiro ao Hezbolah, ao Bin Laden, ao Klux Klux klan, ou às claques dos clubes de futebol e por aí adiante. Refiro-me à mansa justiça do dia a dia, aplicada com doutos pareceres jurídicos elaborados por incansáveis servidores do bem público em bibliotecas pejadas de jurisprudência.

Mas resumindo, foi assim: como cidadã habituada a não deitar para o passeio os restos do jantar
(metáfora para utilizar a palavra "lixo"em geral), uso aqueles sacos de plástico apropriados
para o efeito e coloco-os no contentor do prédio.

E até me dou ao luxo de andar umas centenas de metros para, religiosamente, cumprir o objectivo dos recipientes de reciclagem, que é uma questão mais espírital do que material.

Pois numa dessas vezes, deitei nos tais sacos, e respectivo contentor, algumas revistas velhas,
prospectos, catálogos de publicidade e coisas que tais - cuja quantidade, por tão pouca, não
merecia pôr-me a calcorrear à chuva até aos pontos verdes, amarelos, azuis e encarnados.

Eis senão quando, passado algum tempo, recebo uma carta registada com aviso de recepção da
ilustre Câmara Municipal de Lisboa, pejada de artigos do CPA e regulamentos camarários,- que
faria inveja a um parecer da Procuradoria-Geral da República - instando-me, sob pena de
instauração de acção judicial, a pagar uma choruda multa, mais custas e juros. E sabe-se lá que mais...

E porquê? Porque as ditas revistas, ou algumas delas, tinham sido encontradas espalhadas no
passeio, numa rebaldaria sem par, e como o meu nome e endereço constava delas, era claro,
evidente, e juridicamente indiscutível para os doutos doutores, que tinha sido a minha pessoa a espalhá-las sem eito nem jeito, no passeio da cidade que é, como se sabe, impoluta e acérrima defensora do ambiente.

Mas o mais paradoxal é que as revistas não estavam à minha porta, estavam junto a um outro prédio numa outra rua tal, número tal (como consta da longa carta),e que dista largas dezenas de metros do sitio onde vivo.

Pasmei. E se as tivesse colocado no Rossio? Imaginei-me de metro, com um monte de revistas na mão, a pô-las subrepticiamente junto á pastelaria Suiça ou, quiçá, na Costa da Caparica.

É certo e sabido que há gente a vasculhar os contentores de lixo.Já assisti a mares de roupas
espalhadas pelo chão...Felizmente não tinham as minhas iniciais...

É certo e sabido que pessoas há que levam determinados objectos, e que os lançam, depois, onde
lhes aprouver, se a coisa não lhes interessar.

Mas isso, para a Câmara Municipal de Lisboa, é piece of cake. Está lá o nome? Pimba! Ahhhh...esfregam as mãos de contente.Apanhámos um! Mais uma multa para contrinuir para a avaliação de desempenho dos zelozos funcionários!! A recibo verde, mas adiante.

Por isso, meus caros, tenham cuidado. Se deitarem umas cuecas velhas no contentor, com um
bordadinho tipo "Adoro-te, João Sebastião", não tenham a certeza que elas lá fiquem dentro. Cortem, pelo menos o "Sebastião".

Terça-feira, Outubro 17, 2006

Pássaros de seda




Qualquer coisa serve para escrever, ou para pensar. Mesmo o pormenor aparentemente mais insignificante. Um gesto que se nota, um pensamento que surge, alguém, uma pedra que seja.
Hoje surgiu-me a Rosa Lobato Faria, uma escritora cujo valor ainda não foi devidamente reconhecido. Não que não seja conhecida. É dela o texto em baixo, uma intensa ligação amorosa, um desejo, um desenho emocional Não uma biografia. Uma coisa que apetece apenas. Escrevem-se poemas de palavras feitas de estrelas, de universos de sentimentos, palavras de aproximações, palavras de alusões.
Escrevem-se biografias com fantasmas do passado ou desejos por realizar. Escrevem-se biografias novas, bonitas, poéticas, reinventando vidas. Hoje há a vida da época, da televisão, do vizinho. Já fabricada, embalada, reciclada, pronta a consumir em reminiscências poéticas. Antes do “bios”, a grafia. Poucos são os retratos reais de vidas vividas, pouco a pouco, sobrepostas na memória.

É só uma coisa que apetece. E depois tudo recomeça, mais puro, recomeça do nada, do zero.

“Ele tirou a roupa com elegância e o seu corpo nu era bem a prova da existência do deus que criou o homem ao sétimo dia e descansou. Olhou-a sem a tocar e disse, tira a pulseira, os brincos, esse fio de ouro, quero-te nua, estás cheia de símbolos de classe social e agora não és nada disso, és um bicho soberbo, felino, em pleno cio. Ela obedeceu sem tirar os olhos dos seus olhos daquele dia, e ele procurou a boca dela pelo caminho das coxas, do ventre, dos seios, dos olhos, das orelhas, purificou-se na humidade dos lábios, disse palavras tontas, cântaro, barco à vela, fada, gueisha, camélia, tangerina, iniciou o caminho de volta enquanto as mãos ensaiavam voos de gaivota pela praia, pelos ombros, as costas, as nádegas, e os dedos festejavam e dizia palavras. E o corpo dela de tocaia suspenso entre o céu e a terra, oferecendo-se àquela língua sábia, enquanto o coração, ai dele, se afogava em marés ilimitadas. A sua branca, feminina garganta navegou em todos os cambiantes do murmúrio e do grito, e na hora vermelha, solta de todas as amarras, ouviu-se dizer palavras espantosas, morde-me, inunda-me, mata-me, quero que todos saibam que sou a tua coisa, a tua fêmea, ai.”

In “Os pássaros de seda”- Rosa Lobato Faria

Imagem: Dionisio Leitão

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Apontamento



Um interessante livro de Jean Shinoda Bolen, "As deusas em cada mulher" (Editora Planeta), relacionado com o arquétipo feminino. Retiro um pouco do prefácio. Há também o contraponto masculino que ainda não li.

"Existem sete arquétipos complexos a examinar e a combinar de diversas formas, e cada um possui dentro de si uma miríade de variações(...). É verdade que existem deusas que se identificam inteiramente pela sua relação com o homem poderoso - afinal viviam no patriarcado, tal como nós - mas também revelam o seu poder, tanto por subterfúgios como abertamente. E existem igualmente modelos de autonomia que assumem muitas formas, desde as sexuais e intelectuais às políticas e espirituais. Mais invulgar é o facto de existirem muitos exemplos de mulheres que se ajudam umas às outras e estabelecem laços entre si.
Em segundo lugar, esses arquétipos complexos podem ser combinados e invocados segundo as necessidades da situação de uma mulher ou da parte por desenvolver nela existente.
Se, nos "media", um vislumbre de um modelo a imitar pode ter um impacto tão grande nas vidas das mulheres, quão mais profundas não serão, porventura, a activação e a estimulação de um arquétipo no íntimo de determinada mulher?
Finalmente, não existem instruções para utilizarmos quaisquer estereótipo ou para nos limitarmos a uma deusa ou até a várias. No seu conjunto, elas constituem o círculo completo das qualidades humanas. Na realidade, todas elas surgiram da fragmentação de uma deusa, a Grande Deusa, o ser humano feminino integral que, pelo menos na religião e na imaginação, terá vivido nos tempos anteriores ao patriarcado(...)".

Uma viagem ao mundo da psicologia da mulher através dos mitos, e não só, com sete deusas gregas cuidadosamente escolhidas.A mulher, aquela que, como alguém diz, é extremamente poderosa e invade o homem em cada parte do seu ser, "sugando-lhe, pela sedução, o seu poder viril".

Daí a recordar Camões e a Ilha dos Amores:

Dá Veloso, espantado, um grande grito:
"Senhores, caça estranha
disse, é esta"!

(Canto IX, 69)

Sigamos estas deusas e vejamos
Se fantásticas são, se verdadeiras!
Isto dito, velozes como gamos,
Se lançam a correr pelas ribeiras.

(Canto IX, 70)



Segunda-feira, Outubro 02, 2006

are welcomo to elsinore



Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny de Vasconcelos

Imagem: Olhares sobre Lisboa

Terça-feira, Setembro 26, 2006

Quo vadis, domine?

floating


Então adeus, a gente vê-se por aí. Foi assim que se despediram, depois de dias de conversa amena em viagem no mesmo comboio. Ele, extrovertido, conversador, olhos escuros e indolentes. Ela, introvertida, arisca, olhos claros e tristes de quem fixa longamente o horizonte, vivera temporariamente naquela aldeia, por razões só dela conhecidas. Mas chegara a hora de partir para as Malvinas, o seu torrão natal.
Ouve-se o som duma música ao longe, acompanhando as palavras profundas do Gonçalo da Câmara Pereira, num fado marialva.
O dia tinha o perfume do fim do Verão, o primeiro cheiro da chuva, das ervas, das árvores, das folhas, misturando-se com o odor das algas na areia da praia deserta e no ciclo das marés. Até chovia um pouco, "comme il fault".

Os dois bombeiros eram muito jovens, tal como os dois agentes da PSP. Jovens, correctos, impecáveis.
- Quanto é?
- Não é nada, os nossos serviços são gratuitos.
Fiquei boquiaberta.Não resisti e ofereci-lhes duas garrafas de sumo de maracujá concentrado, F. Faria e Filhos (falta-me a tecla do respectivo simbolo comercial, do "e"), Rua das Maravilhas, n.º 25 CC e 25 D, Funchal, Madeira, que um dos meus irmãos me costuma trazer, em memória dos maracujás que devorámos quando vivíamos a infância nas ilhas.

Tinham passado pelo largo da igreja, contornado o pelourinho, passeado na praia ondulante de marés vivas, e finalmente entrado num café, o "Berço do Mar", que cheirava fortemente a sardinhas assadas.
Não foi uma despedida trivial, ou de mero protocolo social. Era assim como que uma rendição com um desvelo no olhar, uma fatalidade. Como se a exaltação do primeiro encontro não se tivesse repetido, repetido, como um relógio que retoma sempre o mesmo prazer. Assim como se não tivesse havido fascínio, como se o olhar não tivesse cortado o tempo em pequenas fracções de universo, como se não houvera tempestade.

Senti-me sobreviver com um cesto de flores na mão, como conta Ovídio nas Metamorfoses, depois de, finalmente, ter conseguido entrar em casa.

Estiveram longo tempo sentados, expectantes, parecendo implorar ao tempo que se virasse do avesso, que não passasse demasiado depressa, que guardasse o calor que vinha deles, do fundo da terra, do centro da terra. Olharam-se, cada um na sua vida passada, nos seus amores passados, nas suas coisas passadas, emoldurados num anel, num livro, numa simples recordação, evitando o espelho em frente que transformava em diamente a pedra bruta.
Quando o táxi chegou, ele ajudou-a gentilmente a arrumar as malas, t-shirt por dentro das calças de ganga, o blusão de tecido de gabardine inclinando-se junto do porta bagagens, ela silenciosa e já sem o sorriso a abrir pequenas covinhas no seu rosto claro, lutando para não desabar em choro de estresse (stress), e o vento...(o vento!! já me esquecia do vento) a espalhar poeira em torvelinho na rua molhada á beira mar. Adeus, a gente vê-se por aí.
Ainda voltou atrás, tinha-se esquecido do guarda chuva que comprara na feira de Carcavelos, quando tinha apenas 7 anos e ainda havia escudos.

Sentei-me a beber um copo de água da torneira e a ler jornais. Um artigo do Vital Moreira no "Público" do dia 19 de Setembro, sobre a irresponsabilidadede financeira regional, chamou-me a atenção, seguido de outro sobre o aumento das taxas moderadoras do Serviço Nacional de Saúde.

Caminhei para o sofá, fui fazer festinhas ao meu cão que é também o meu melhor amigo, e ali adormeci sem apagar a luz.


Imagem: Dionisio Leitão

Segunda-feira, Setembro 18, 2006

Jorge Luis Borges



"O pensamento mais fugaz obedece a um desenho invisivel"

Jorge Luis Borges in "O Aleph"

Imagem: Dionisio Leitão